Rodeios, Vaquejadas e Touradas

Os rodeios organizados atualmente no Brasil são eventos que guardam poucas relações com as vaquejadas, as competições originais dos peões de boiadeiro, do Brasil rural nortista, nordestino, pantaneiro, goiano ou sulista. Trata-se da introdução de uma cultura norte-americana proveniente do Texas, cujo principal elemento  é o “cow-boy”. Essa festa americanizada envolve muito capital, há lobbiesde controle dos eventos e é tenazmente defendida pela “bancada rural” no Congresso Brasileiro, que vai promulgando leis que favorecem a realização dos rodeios, à revelia da Lei dos Crimes Ambientais, que trata dos abusos e crueldades contra animais. As leis promulgadas abrem brechas à Lei  dos Crimes Ambientais. Em 2016 Michel Temer aprovou a Lei 13.364/2016, que eleva o Rodeio, a Vaquejada, bem como as respectivas expressões artístico-culturais, à condição de manifestação cultural nacional e de patrimônio cultural imaterial. A vaquejada, pode ser considerada uma manifestação cultural brasileira, apesar de cruel: perseguição de bovinos por cavaleiros, com o objetivo de derrubá-los, puxando-os pela cauda, podendo causar arrancamento da cauda,  rompimento da medula, fratura nas patas e cauda, entre outros danos. O rodeio, porém, nos moldes em que é feito, é uma manifestação da cultura texana, norte-americana e não brasileira, indicando um equívoco no entendimento dessa lei. A PEC 304/2017, ainda em tramitação mas em vias de ser aprovada, estabelece que “práticas desportivas que utilizem animais não são consideradas cruéis, desde que sejam manifestações culturais”; não há uma relação lógica neste raciocínio, pois o fato de ser tido como cultural não exime um ato de ser cruel.

As competições são sempre muito agressivas aos animais, na prova de montaria, quando os touros passam por intenso estresse e é produzida forte irritação no animal, por estresse, por dor ou por choque, com a finalidade de fazê-lo corcovear de maneira anormal para um animal que convive com humanos e que fica normalmente em estábulos e mangueiras. Não é apenas o uso do sedem (amarração com compressão do saco escrotal) que justifica os maus-tratos. Toda a prova, submetendo os animais ao estresse, aplicando choques  com bastão, nos recintos de espera, longe dos olhares do público, utilizando esporas pontiagudas, embora proibidas, submetendo  os animais a um ambiente barulhento, repleto de gritos e luzes, pode ser considerada como cruel e abusiva. Desnecessário criar esse tipo de diversão para o povo, quando atividades muito mais construtivas poderiam divertir até muito mais.

As outras provas, como a “prova do laço” e o “bulldog”, são ainda mais cruéis, por envolverem bezerros, bem mais frágeis que os touros adultos. Na prova do laço, o animal é laçado pelo pescoço e derrubado no ar, em plena corrida, literalmente “voando” quando  o laço aperta; pode ter ruptura de medula e morrer ou pode ficar muito machucado e paralítico, sendo, então, sacrificado. Na prova do “bulldog” dois peões cercam um bezerro e um deles deve dominar o animal torcendo-lhe o pescoço com os braços e as mãos e o derrubando; em Barretos, em 2011, um bezerro morreu durante a prova, por lesão em vértebra cervical.

 

Estas são as características dos rodeios e dos peões de boiadeiro tradicionais do Brasil:

Este é o rodeio norte-americano, que nada tem em comum com os rodeios e vaquejadas da cultura brasileira. Portanto, a legislação que atribui aos rodeios modernos o “status” de “cultura brasileira” é equivocada.

Outra festa do gênero é a Farra do Boi, manifestação cultural de origem açoriana, que ocorre em Santa Catarina, mas atualmente é prática sustada. Consiste em deixar um boi faminto e nervoso e soltá-lo nas ruas, nas quais é perseguido pelam população que pode agredi-lo com facas, paus, arrancar-lhe os olhos e cometer outras atrocidades, mas sem matá-lo, para que  sofra; ao final, é abatido. Sobre a legislação que envolve esta e outras práticas cruéis com os animais, há bons artigos, como estes de Tagore Trajano  e Moreira (2016). 

As touradas, felizmente, não existem no Brasil, mas diferem pouco da Farra do Boi e mesmo dos rodeios e vaquejadas.

Estes eventos sangrentos usando animais remontam à Idade Média e já poderiam ter sido extintos, com a evolução da humanidade.